5 Porquês¶
Ao lidar com problemas do cotidiano, frequentemente caímos em um ciclo vicioso de "tratar os sintomas, mas não a causa raiz": resolvemos um problema, mas logo depois ele reaparece da mesma forma ou de maneira semelhante. Isso geralmente ocorre porque lidamos apenas com os sintomas superficiais do problema, sem tocar a causa raiz que o originou. 5 Porquês é uma técnica extremamente simples, porém profundamente eficaz, de Análise da Causa Raiz (RCA). Foi proposta por Sakichi Toyoda, fundador da Toyota Motor Corporation, e é uma ferramenta central de resolução de problemas no Sistema de Produção Toyota (TPS).
A ideia central do método dos 5 Porquês é perguntar continuamente e iterativamente "Por quê?" sobre um problema existente, aprofundando-se camada após camada, como se estivesse descascando uma cebola, até encontrar a causa subjacente. Se essa causa raiz for tratada, pode impedir completamente que o problema volte a ocorrer. Não é necessário fazer exatamente cinco perguntas; às vezes a causa raiz é encontrada com três porquês, outras vezes pode exigir mais. A essência está no espírito de investigação persistente, sem se contentar com respostas superficiais. É uma poderosa ferramenta de pensamento que muda o foco da equipe de "De quem é a culpa?" para "Por que isso aconteceu?", e de "apagar incêndios" para "prevenir incêndios".
A Cadeia Lógica dos 5 Porquês¶
O processo dos 5 Porquês constrói uma cadeia clara de causa e efeito, do sintoma até a causa raiz. A resposta a cada "Por quê?" torna-se o objeto do próximo "Por quê?".
graph TD
subgraph The Causal Chain of 5 Whys
A(<b>Problem/Symptom</b><br/>e.g., Our website crashed) --> B(<b>Why? (Why 1)</b><br/>Direct cause);
B --> C(<b>Why? (Why 2)</b><br/>Second-level cause);
C --> D(<b>Why? (Why 3)</b><br/>...);
D --> E(<b>Why? (Why 4)</b><br/>...);
E --> F(<b>Why? (Why 5)</b><br/><b>Root Cause</b><br/>Often points to a flawed<br/><b>process, system, or standard</b>);
end
Como Realizar uma Análise de 5 Porquês¶
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Passo 1: Formar uma equipe, definir o problema
- Reúna um pequeno grupo de pessoas que trabalham na linha de frente e que conhecem o problema e seu contexto.
- Escrevam conjuntamente uma declaração do problema usando uma linguagem clara e objetiva. Por exemplo: "Em 26 de outubro de 2023, às 10 horas, o servidor do sistema de pedidos dos clientes travou."
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Passo 2: Começar a perguntar continuamente "Por quê?"
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Primeiro "Por quê?": Faça a primeira pergunta "Por quê?" sobre a declaração do problema.
- Pergunta: "Por que o servidor do sistema de pedidos dos clientes travou?"
- Resposta: "Porque o uso da CPU do servidor atingiu 100%."
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Segundo "Por quê?": Use a resposta anterior como novo objeto e continue perguntando.
- Pergunta: "Por que o uso da CPU do servidor atingiu 100%?"
- Resposta: "Porque uma consulta SQL no banco de dados entrou em um loop infinito."
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Terceiro "Por quê?":
- Pergunta: "Por que essa consulta SQL entrou em um loop infinito?"
- Resposta: "Porque havia um erro lógico na consulta ao processar um tipo especial de dados do usuário."
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Quarto "Por quê?":
- Pergunta: "Por que esse código com defeito foi implantado no ambiente de produção?"
- Resposta: "Porque nosso processo de revisão de código não cobria esse caso de teste específico."
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Quinto "Por quê?":
- Pergunta: "Por que nosso processo de revisão de código tinha essa falha?"
- Resposta: "Porque não estabelecemos uma lista de verificação padronizada de revisão de código que inclua todos os itens necessários de verificação."
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Passo 3: Identificar a causa raiz e formular contramedidas
- Identificar a causa raiz: No exemplo acima, a causa raiz foi identificada como "falta de uma lista de verificação padronizada de revisão de código". Este é um problema em nível de processo. Se tivéssemos corrigido apenas o erro lógico na consulta SQL (a resposta do terceiro "Por quê?"), é muito provável que surgissem outros problemas semelhantes no futuro, devido a códigos insuficientemente testados.
- Formular contramedidas: Desenvolva uma medida corretiva específica e exequível para a causa raiz. Por exemplo: "O líder técnico será responsável por criar uma lista de verificação padronizada de revisão de código, incluindo testes de desempenho, segurança e condições de limite no banco de dados, até o final desta semana, e todas as equipes deverão segui-la no futuro."
Casos de Aplicação¶
Caso 1: Corrosão das paredes de pedra do Jefferson Memorial em Washington D.C.
- Problema: As paredes de pedra do memorial estavam severamente corroídas.
- Por quê? (1) Porque os limpadores usavam detergentes de alta força com muita frequência para lavar as paredes.
- Por quê? (2) Porque havia uma grande quantidade de fezes de pássaros nas paredes todos os dias, exigindo limpeza frequente.
- Por quê? (3) Porque um grande número de andorinhas se reunia ao redor do memorial, alimentando-se de aranhas que se multiplicavam ali.
- Por quê? (4) Porque um grande número de aranhas era atraído pelas luzes do memorial, pois gostam de se reunir em lugares iluminados para tecer teias ao entardecer.
- Por quê? (5) Porque o sistema de iluminação do memorial era programado para ligar uma hora antes do pôr do sol.
- Causa Raiz: Configuração inadequada do horário de ativação do sistema de iluminação.
- Solução: Ajustar as luzes do memorial para ligar após o pôr do sol. Essa mudança simples, orientada ao processo, resolveu fundamentalmente o problema da corrosão das paredes de pedra.
Caso 2: Uma poça de óleo no chão da fábrica
- Problema: Havia uma poça de óleo no chão da fábrica.
- Por quê? (1) Porque o encaixe do tubo de óleo de uma máquina estava com vazamento.
- Por quê? (2) Porque a junta do tubo de óleo estava velha e rachada.
- Por quê? (3) Porque a empresa comprou um lote de juntas de baixa qualidade e preço baixo.
- Por quê? (4) Porque a única exigência da política de compras da empresa era "quem oferecer o menor preço ganha".
- Por quê? (5) Porque o desempenho do departamento de compras estava vinculado apenas à quantidade de custos de compra que "economizavam" para a empresa, sem considerar a qualidade e a vida útil das peças de reposição.
- Causa Raiz: Sistema de avaliação de desempenho inadequado para o departamento de compras.
- Solução: Revisar as políticas de compras e os sistemas de avaliação para incluir na avaliação a qualidade dos fornecedores, a confiabilidade e os custos de longo prazo.
Caso 3: Um aluno reprova em uma prova final
- Problema: Xiao Ming reprovou na prova final de matemática.
- Por quê? (1) Porque ele só começou a revisar na última semana antes da prova, o que não foi tempo suficiente.
- Por quê? (2) Porque ele não entendeu grande parte do conteúdo ministrado em aula.
- Por quê? (3) Porque ele sempre brincava com o celular durante as aulas e não conseguia se concentrar.
- Por quê? (4) Porque ele simplesmente não gosta de matemática e não tem interesse nela.
- Por quê? (5) Porque no ensino fundamental, ele foi severamente criticado por um professor após reprovar em uma prova de matemática, o que causou uma sombra psicológica e medo da disciplina.
- Causa Raiz: Experiências negativas de aprendizagem no início da vida escolar levaram a barreiras psicológicas.
- Solução: Pode exigir aconselhamento psicológico e construção da autoconfiança, além de reestabelecer o interesse pela matemática começando por conceitos mais básicos, onde ele possa experimentar sucesso.
Vantagens e Desafios dos 5 Porquês¶
Vantagens Principais
- Simples e Fácil de Usar: Não requer ferramentas estatísticas complexas ou conhecimento especializado; qualquer equipe pode começar rapidamente.
- Vai à Raiz do Problema: Ajuda as equipes a ultrapassar os sintomas superficiais de um problema para encontrar soluções de alto impacto que possam resolver o problema fundamentalmente.
- Promove Compreensão, Não Culpa: Muda o foco de "quem cometeu o erro" para "por que o processo permitiu que o erro acontecesse", ajudando a construir uma cultura mais saudável e centrada em resolver problemas.
Desafios Potenciais
- Pode Haver Múltiplas Causas Raiz: Para problemas complexos, a causa raiz pode não ser única, mas sim um sistema interconectado. Nesses casos, os 5 Porquês podem simplificar excessivamente o problema.
- Depende do Conhecimento dos Participantes: A profundidade da análise depende muito do entendimento da equipe sobre o processo e a situação real.
- Pode Parar no Meio do Caminho: A equipe pode parar de perguntar "Por quê?" após encontrar uma causa aparentemente razoável, mas que não seja a mais fundamental.
Extensões e Conexões¶
- Diagrama de Espinha de Peixe (Diagrama de Ishikawa): Quando um problema pode ser causado por múltiplas razões diferentes e paralelas de várias áreas, pode-se primeiro usar um diagrama de espinha de peixe para brainstormar e organizar sistematicamente todas as possíveis causas potenciais. Depois, os 5 Porquês podem ser usados para investigar profundamente as causas mais suspeitas.
- Produção Enxuta (Lean Production) e Seis Sigma (Six Sigma): Os 5 Porquês são uma das ferramentas mais comuns e fundamentais para análise de causa raiz em ambas as metodologias de melhoria da qualidade e operações.
Referência da Fonte: O método dos 5 Porquês, como um dos pilares do Sistema de Produção Toyota (TPS), foi concebido por Sakichi Toyoda e popularizado por Taiichi Ohno em seu trabalho. É uma manifestação central da cultura de resolução de problemas e melhoria contínua no pensamento enxuto.